Após a morte de Júlio Cordeiro, na sexta-feira (18), áudios e vídeos passaram a circular nas redes sociais
Um desses funcionários, que não quis se identificar, disse à reportagem do Brasil de Fato que, em vez de acolhimento e palavras de conforto, ouviram da chefia: “Vocês precisam saber que trabalham na mineração, numa área com risco de rompimento, e cada um de vocês precisa ter a consciência que, assim como Júlio, pode não voltar mais para casa”.
O operador de retroescavadeira Júlio César é a vítima mais recente. Morreu por asfixia, segundo laudo do Instituto Médico Legal (IML) de Minas Gerais, depois do desmoronamento de parte da encosta de um talude, que é um plano de terreno inclinado construído para garantir a estabilidade do aterro e conter os rejeitos de mineração. Cordeiro era casado e pai de um bebê de quatro meses. No dia da morte, chovia na região e ele fazia a limpeza da barragem B1 da Mina do Córrego do Feijão.
Rotina dos trabalhadores da mineração
Amigos da vítima relatam o medo de seguir na mineração. Emocionado, um dos trabalhadores, em áudio* que circula em grupos de trabalhadores e que foi enviado ao Brasil de Fato, fala sobre o perigo de trabalhar na área.
“Eu falei, eu já tinha avisado ao meu supervisor. Os engenheiros falaram que a gente podia subir. Essa chuva que deu ontem avacalhou o trem todo. Esse trem tá perto de estourar de novo, esse demônio desse trem. Que raiva desse demônio desse trem, essa empresa aqui não presta, não”, desabafa.
Dias antes da morte desta sexta-feira, outro trabalhador registrou seu pavor, por meio de um vídeo*, diante dos riscos da atividade minerária. Ele pede que sua família guarde seu depoimento como prova da violência invisível que sofre a cada dia na mineração em Brumadinho.
“Estou fazendo esse vídeo aqui pra me precaver. Se acontecer qualquer coisa, vocês mandam pra minha família, minha mãe. Isso é um absurdo, essa barragem aqui, olha. O trem está todo encharcado. Olha aonde que eu estou, esse inferno aqui, olha. Isso aqui é o inferno, isso aqui não pode existir não. Olha isso aqui, olha lá. ‘É os primeiro’ a morrer. Mas infelizmente precisa, né? Precisa. Se vocês não conhecem o inferno, é só vir aqui”, declara.
Violência Invisível
Cordeiro morreu na mesma data em que foi aprovado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) o projeto de Lei 1200/15 que qualifica os direitos e a luta da população atingida por barragens. Apesar da vitória, Minas Gerais ainda está longe de comemorar avanços concretos na legislação.
Meses depois da ruptura da barragem B1, em Brumadinho, em julho de 2019, outro trabalhador gravou um vídeo* na barragem B6, onde uma obra seria feita, denunciando os riscos que poderiam envolver a intervenção. O material foi enviado diretamente à reportagem do Brasil de Fato.
A obra chegou a ser paralisada depois de denúncias, mas foi retomada com acompanhamento de auditores do Ministério Público de Minas Gerais e do Corpo de Bombeiros. Nenhum acidente foi registrado no local. Segundo apurou a reportagem, esse trabalhador decidiu deixar o serviço por medo de morrer durante a atividade.
Recomeço
Em 25 de janeiro de 2019, Reinaldo Augusto das Chagas, aos 41 anos, viveu o pior dia da sua vida, e renasceu da lama. Ele dirigia um caminhão-pipa de uma empresa terceirizada e estava dentro da área da mineradora Vale no momento do rompimento da barragem B1. Ele é um dos 64 sobreviventes da tragédia.
Reinaldo diz que sentiu o chão tremer e viu a avalanche de rejeitos passar por cima de colegas que gritavam por socorro. Mesmo depois de quebrar o pé na tentativa de fugir, ele conseguiu continuar correndo, com o apoio de um sobrinho, que pedia para que ele não desistisse. Reinaldo se emociona ao lembrar do sentimento de impotência por não ter conseguido salvar os amigos.
“Depois que souberam que havia sobreviventes, a mineradora mandou um ônibus para buscar a gente. Me deixaram no ponto e eu caminhei até minha casa, como se fosse um dia qualquer de trabalho. Andei um quilômetro, por meia hora, com a roupa completamente suja de lama e o pé quebrado. Ao chegar à rua, uma surpresa: todos estavam me esperando. Foi muito emocionante!", conta, lembrando que passou 6 horas sem contato com a família, ainda nas instalações da Vale.
Reinaldo relata que até hoje não foi chamado pela Vale para passar por nenhum exame médico e que foi convocado para voltar ao trabalho menos de uma semana após a tragédia. Em um momento após seu retorno, no refeitório, ele teria escutado críticas de um gestor devido à tristeza e ao abatimento da equipe. “Ele falou pra gente que quem morreu, acabou. Quem ficou tinha que trabalhar e deixar o passado para trás. Eu fiquei revoltado”, relata.
Uma revolta que levou o trabalhador a deixar de vez a mineração e investir em outro caminho, segundo ele, mais seguro e digno. Abriu um lava-jato, onde trabalha diariamente, com a ajuda da família. Ele veste o uniforme usado no dia do desastre. “Eu uso como um amuleto de sorte. Me lembra da minha força naquele momento. Eu não desejo aquilo para ninguém”.
A morte de mais um trabalhador é, para Reinaldo, a comprovação de uma tragédia anunciada. “Já havia rumores de que o local era instável. O banco já estava desabando, e eles estavam arrumando. Sabiam do risco, o que demonstra, mais uma vez, a imprudência. Aí a gente se pergunta: até quando as pessoas vão precisar morrer e as famílias chorar a dor da perda dos seus parentes?”, questiona.
Sindicato diz ter alertado a Vale
Segundo Eduardo Armond, diretor do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada de Minas Gerais, desde o ano passado, reuniões são solicitadas à Vale. O objetivo desses encontros seria discutir a situação de segurança e saúde dos trabalhadores em todas as suas áreas de atuação.
“Em especial, queremos o cumprimento da NR 22. Até hoje não conseguimos retorno da mineradora para composição das comissões de situação de trabalho. Nós avisamos que, com as chuvas, a tendência era ocorrer outra tragédia. Nosso desejo era o de prevenir, solicitar urgentemente que o ritmo de trabalho diminuísse e tivesse acompanhamento do sindicato, mas a Vale não nos retornou ainda”, afirma.
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Sobre as denúncias de assédio por parte de gestores da Vale para que funcionários cumpram suas atividades, mesmo que abalados psicologicamente, Armond afirma que tais relatos são recorrentes. “Sei que denúncias de assédio por parte de lideranças das terceirizadas são comuns. O que acontece é que a Vale pressiona as terceirizadas e essas reproduzem o assédio”, argumenta.
Neste domingo (20), o sindicato informou que a nova solicitação para composição da comissão de situação de trabalho na mineração foi atendida pela Vale. A reunião foi marcada para esta segunda-feira (21).
Os alvarás de funcionamento e localização da Vale e de suas terceirizadas na cidade estão suspensos por um decreto da prefeitura de Brumadinho. Segundo o documento, o objetivo é que as causas da morte possam ser esclarecidas e "garantidas as condições de segurança para os trabalhadores que atuam no local”.
*No áudio e nos vídeos desta reportagem, o Brasil de Fato distorceu a voz dos trabalhadores para preservar suas identidades.
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